Thiago's profileMar de Sargaço - crônic...PhotosBlogLists Tools Help

Blog


    October 09

    Conto: Um Francano Esquecido

    Um francano esquecido

     

                A Matriz da Franca sempre lhe foi um ponto de referência e inspiração. Não havia por certo nele um querer não-estar lá. Estava todo dia sentado no banco de concreto, certamente divagando devagar, de um jeito que só quem não tem nada pra se preocupar consegue. Zico, como os taxistas lhe chamavam, antes trocava olhares e tentava conversar com os transeuntes, porém, depois de tantas vezes sumariamente ignorado, deixou pra lá; apenas observava o movimento, dando atenção a quem lhe dava atenção. Foi tantas vezes tratado como um animal que até já se sentia como um: coberto de pulgas, rosto peludo e cheiro ruim já faziam parte dele.

                Fazia muito tempo que morava ali. Mas nem sempre foi todo sujo e estropiado, já havia sido ele diferente: quando era pequeno logo foi separado da família, quis o destino que fosse criado por uma senhora que morava num sítio afastado. Um dia, sem mais nem menos, a velha morreu. O coitado, que já estava mais crescido, virou-se como pode, mas um tempo depois acabou vindo morar na rua. Evitava pensar no passado, preferia perder o tempo com o que se passava na praça. Tinha uma relação única com aquele local arborizado e repleto de pessoas.

                Seu território compreendia da porta da igreja até o relógio de sol. Já Branco, um mendigo que morava do lado de lá da praça era dono desde o relógio até a loja de departamentos, lá na outra ponta. O coitado de quem eu falo nunca trocou muita conversa com Branco. Nas poucas vezes que conversaram acontecia uma briga entre os dois. Não que o cara seja um mau caráter, ele realmente tinha razão em reclamar quando Zico mijava do lado do banco em que dormia.

                As árvores amenizavam um pouco as o calor das tardes infernais. No inverso, invariavelmente invernava à noite, quando o vento seco cortava-lhe as faces e doíam-lhos ossos. O movimento acabava, excetuando alguns bêbados ocasionais que às vezes o perturbava, e Zico podia ficar sozinho com o tapete brilhante do céu. Ah, como adorava as estrelas, mais até do que a lua. Passava horas, dias, anos, contando-as, sentindo-as com os olhos. Mesmo depois que a vista foi piorando, o coitado apertava as pálpebras para não perder o infinito celeste. Algumas vezes ele tinha tanta sorte que as luzes da praça eram cortadas e podia-se afinal ver o firmamento em seu esplendor. Franca é uma cidade situada sobre colinas, mais alta que as outras da região, e, portanto, mais perto das estrelas.

                Havia momentos bons durante o dia também. Demorou um pouco, mas Zico ficou amigo dos taxistas da praça. Sempre que podiam traziam comida, conversavam com ele. Um dos motoristas em especial, Seu Carlos, era uma ótima pessoa. Tratava o morador de rua como seu filho. Várias vezes, quando a tarde estava fraca de corridas, levava Zico para conhecer os cantos de Franca. Coitado do Seu Carlos, sempre querendo ajudar. Um dia foi levar dois rapazes no meio da noite pra um bairro afastado. Era na verdade um assalto, ele só percebeu mais tarde, quando era tarde demais. Queriam levar seu carro, mas o taxista tentou reagir. Não deu outra: mataram ele com dois tiros nas costas. No dia seguinte os outros taxistas vieram avisar o amigo. Ele não se conformou, chorou e ficou triste por muito tempo. O velho Carlos era o único companheiro que ele teve em sua triste vida. Tentaram consolar, manter as conversas das tardes fracas, mas o morador da praça não queria substitutos. Com o tempo Zico foi se isolando mais e mais.

                Há um tempo atrás ele adoeceu. Pegou uma doença qualquer, doença de velho, sabe. Minto. É doença de quem vive largado por aí, comendo e dormindo mal sempre, de quem é ignorado pelas pessoas que passam na rua, é o indivíduo travestido de lixo. Zico pegou um tipo de gripe-esclerose-depressiva. Começou a esquecer de comer, de dormir agasalhado, de olhar para o céu. Foi padecendo aos poucos, lentamente como um salgueiro centenário.

                Há uns dias atrás ele morreu. Poucas pessoas perceberam sua ausência. Zico já estava mais pra lá do que pra cá quando um dos taxistas o levou para o veterinário. O doutor foi incisivo no diagnóstico: “esse cachorro vira-latas morreu de tristeza”.

    June 24

    Conto - Um Tiro no escuro

     UM TIRO NO ESCURO

     O sono é grande, mas a batalha é invencível. Pense no que quiser.
    Haverá vitória nos olhares puros e inconseqüentes.
     Ele caminhava sozinho pela noite. Escolhia pacientemente os ladrilhos
    que pisava. Não havia pressa, sua vida era a eternidade. De um lado o muro
    pichado com propagandas, de outro o meio-fio. A água suja parada não refletia
    seus pecados. Mendigos amontoados olhavam pra ele, não revidava. Deixe-os
    serem felizes com suas certezas. Eles pelo menos sabem do que precisam para
    viver.
     Virou a esquina. O cabelo negro empalidecia diante da cor dos olhos.
    Curto por causa do trabalho. Regras da profissão, é preciso discrição.
    Escolheu a chave. Abriu o pequeno portão, baixo e coberto de ferrugem. Gemia.
    Preciso chamar de novo o velho pra aparar este mato. Só receber o cheque.
     Subiu o pequeno lance de escadas. O orvalho já descia no bairro, no
    grande subúrbio. Não teve pressa ao escolher a chave certa. Suspirou. Sentiu o
    gosto da noite. Casa escura. Interruptor. Como? Acabou a força. Tudo bem. Só
    ir direto pra cama. E deitou no sofá.
       * * *
     Não sonhou. Nunca sonhava. O sol estava já no teto quando abriu  os
    olhos. Antes de se mover relembrou todo o dia anterior. Cada instante
    importante. Foi só mais um dia comum. Sentou e abriu a gaveta ao lado.
    Procurou algo, não achou. Varreu os olhos pela sala. Havia seu casaco, chave,
    carteira e um coldre com uma pistola. Leve sorriso. Poderia morrer algum dia
    pela distração. Pegou a arma com suavidade e começou a desmontá-la em cima da
    mesa de jantar. Com uma flanela limpava cada fresta. No pente havia onze
    balas. Faltava uma. Fora bem utilizada. Sem desperdício, sem sujeira.
     Fazia isto por necessidade. Era habilidoso e precisava de dinheiro,
    não muito. Mentira. Gostava de matar. Aprimorava cada vez que cumpria um
    pedido novo.
     Jogou todo o resto fora. Não iria mais ser subjugado. Adotou esta
    profissão, mudou de vida. Todos o respeitam agora. Será que preciso fazer tal
    coisa pra ser notado? Acende os holofotes em si. Um ilustre desconhecido. Não
    queria luxo, queria uma vida. Nunca mais passaria fome.
       * * *
     -Como assim você não acredita em Deus?
     -Não acredito. Simples.
     -Mas alguma crença, algo que faça mover o mundo você deve ter.
     -Tenho não.
     -De onde você veio, pra onde você vai, o motivo de ter nascido. Nunca
    pensou nisso?
     -Pensei, mas não m'importo em não saber.
     -Tudo bem, e acha que quando morrer tudo acaba?
     -Sim, e daí?
     -Deve ter é medo da morte.
     -Tenho não. Você também não deveria ter.
     -Mas é cla...
     Entrou na sala um terceiro homem.
     -Bom dia senhores, desculpe o atraso. Tocou meu celular aí já viu, né.
     O traje social dos três mascarava suas personalidades. O terceiro era
    pelo menos duas décadas mais velho. Seu ar cansado, olheiras, artrite. Abriu
    sua pasta sobre a mesa. Sacou alguns papéis.
     -Os anexos que faltaram estão aqui. São os originais.
     O ateu passou a examiná-los atentamente. Com uma lupa verificava cada
    carimbo, cada assinatura.
     -Definitivamente é este - consentiu.
     O primeiro, um mulato e mais jovem dos três tirou do paletó um
    isqueiro. Pegou com outra mão os documentos e lentamente ateou neles fogo.
    Purificou assim os pecados de um velho homem. Cansado de fugir, de enganar.
    Todos sorriam. Estavam os advogados apenas cumprindo seu trabalho afinal de
    contas.
     O velho tirou da pasta um envelope. Abriu-o e retirou um cartão
    bancário. Colocou na mesa e apressado fechou a mala. O ateu foi rápido:
     -A senha?
     -Ah, sim. É o dia e mês de hoje, com os zeros.
     -Certo.
     Quando finalmente lacrou a mala, tirou um lenço do bolso. Enxugava o
    rosto suado enquanto se despedia.
     -Muito obrigado, obrigado. Adeus.
     Fechou a porta com cuidado para não bate-la.
     -Certo. Mas então quando morrermos tudo acaba? Viramos nada?
     -É a mesma coisa de antes de nascer. Você surge do nada e pronto.
       * * *
     -Porcaria, será que esqueci as chaves no carro?
     O velho não conseguia conter a ansiedade. Temia algum erro nos
    documentos.
     Era sábado a rua estava vazia. Exceto por um mendigo que se aproximava
    cambaleante. Me dá um dinheiro, aí. Pr'eu comprar um pãozinho.
     -Ah...Bem...Espere. Deixe eu abrir o carro, vou pegar alguma coi...
     Quando deu por si já havia uma arma apontada para seu peito. Ele não
    cheirava a mendigo, por baixo da capa de chuva que usava havia uma roupa
    apresentável, nada mais ordinário que camisa e calça jeans.
     O tirou estalou forte. O velho não caiu ao chão quando batera na
    lateral do carro, foi segurado pelo mendigo. Só estou fazendo meu trabalho.
    Relaxe, o pior já passou, sussurrou o assassino.
     Instantes depois de um escritório aparentemente fechado saíram os dois
    advogados. Estavam armados também. Sabiam que isso poderia acontecer. O
    matador se escondeu atrás do carro, mas não a tempo de evitar ser alvejado na
    barriga. Muito sangue saía, pulsava vermelho para fora. O advogado ateu fora
    quem acertou. Ele contornou  com cautela o carro, porém não o suficiente para
    evitar o revide. A bala atravessou o meio do peito. Caiu de costas no chão. O
    cristão pensou rápido, não temia mais a morte. Atirou por baixo do carro
    diversas vezes. O mendigo finalmente caíra.
     Foi mais cauteloso que seu amigo ateu. Aproximou-se como uma raposa.
    Com olhos de águia sabia que não estavam mortos. Com ódio encostou a arma na
    testa dele, que respirava rapidamente. Ia disparar, mas sentiu uma certa
    felicidade por parte do assassino, que desejou sem saber aquele fim. Disparou,
    pois lembrou do amigo.
     Sem se levantar totalmente o mulato foi até o amigo. Não estava
    respirando direito. Pulsava a vida do buraco ensangüentado do peito.
     -Como é? Como é essa sensação?
     Olhos abertos, mexendo, mas corpo sem resposta.
     -Vamos, ainda é tempo de acreditar em Deus! Se salve!
     Sem resposta.
     -Escute. Eu tenho que ir embora. A polícia vai chegar e eles podem
    descobrir tudo. Boa sorte.
     Saiu correndo pela rua. Esqueceu do carro. Parado a poucos metros.
    Quando virava a esquina pensou no que poderia acontecer.
     -Se sobreviver ele vai ficar puto comigo. Vai me entregar na hora.
    Tenho que dar um fim no desgraçado, e já.
     Voltou. Em princípio correndo, mas ao chegar perto deu passos mais
    tranqüilos.
     -Desculpa viu. Espero que você acredite.
     Disparou, com os olhos fechados. Um estalo seco na rua. Meditou por
    alguns instantes, olhou para trás. Um susto. O matador sumira.
     -Cadê?
     Passou uns minutos seguindo rastros de sangue. Iam para um beco.
    Sirenes. Não havia tempo, tomou o caminho da fuga, jogou a arma num bueiro
    próximo.
     Nunca mais o vira.
     -O maldito tomou um tiro na testa. Juro!
     Seria um fantasma? Ninguém acreditou.
     Seria um anjo vingador? Afinal, valeria ainda alguma coisa acreditar
    na salvação?