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Mar de Sargaço - crônicas, artigos e poesiaDecember 08 Mudança de endereçoOctober 23 Soneto da PerfeiçãoSubitamente eu me lembro de tua
Ausência quando ando à rua
Perpendicular ao teu endereço,
Na rua reta, sem fim ou começo.
Começo a pensar em tudo que foi,
É ou será, na fagulha dos dois
Corpos celestes unidos no espaço-
Tempo, e continuo com meu passo.
Reto sigo pra casa descansar
A mente e o corpo. No andar
Vejo que já passei de minha casa.
Estava tão distraído comigo,
Tão focado no meu próprio umbigo,
Não presto mais atenção no que passa.
10.10.08 July 23 ENED 2008 - Caxias do Sul - RS CHIMARRÃO E CONSTITUIÇÃO
Acabei de voltar do 29º ENED 2008 – Encontro Nacional de Estudantes de Direito – realizado na UCS – Universidade de Caxias do Sul. A viagem foi muito interessante, pois colocou frente a frente estudantes de direito de todo o país. Opiniões foram apresentadas e discutidas, trabalhos apresentados e oficinas realizadas. Mais do que um evento conglobante, o ENED é um choque de realidades e de pensamentos universitários de todo o Brasil.
Nas reuniões decidiu-se, ainda que vagamente, dos rumos da FENED – Federação Nacional dos Estudantes de Direito -, já consolidada como órgão representativo dos alunos de direito. Deu-se demasiado destaque para a atuação militante da FENED, no entanto houve, ainda que reduzida, a propositura de opiniões minoritárias dentro da comunidade estudantil de direito. Cronograma do ENED O ENED constituiu-se basicamente de painéis, grupos de pesquisa (GT's), oficinas, apresentação de trabalhos e manifestações políticas. Os painéis eram debates entre palestrantes sobre temas polêmicos abrangidos pelo constitucionalismo; em seguida foram formados grupos de trabalho (cerca de 30 pessoas) para debater os temas dos painéis, sendo esta uma grande oportunidade para conhecer os estudantes de outras partes do país; as oficinas propiciaram a exposição da diversidade de grupos de extensão voltados ao tema constitucional; já a apresentação de trabalhos envolveu trabalhos de pesquisa e extensão; por fim também houveram manifestações políticas e culturais, cuja presença era facultativa, mas que permitia espaço para a divulgação de ideologias. O ENED foi acima de tudo um encontro político. De fato, a produção acadêmica foi relegada a um segundo plano. Espaço para trabalhos acadêmicos existiu, mas confesso que me decepcionei com o número de trabalhos apresentados. Num universo de mais de mil universitários presentes, foram expostos apenas cerca de trinta trabalhos. É muito pouco de produção acadêmica, que é um dos três pilares do ensino superior. Destaque para a “Caravana da Anistia”, que nos presenteou com uma sessão pública analisando processos de concessão de indenização para os perseguidos políticos na ditadura. Não faltou hospitalidade por parte dos gaúchos, seja nas festas tradicionalistas gaúchas ou nas simples conversas de bar. Aprendemos a tomar chimarrão e o significado das diferentes palavras e expressões locais. Ouvimos bastante sobre a realidade das universidades em outras partes do Brasil. Reclamações não faltaram, pois a falta de estrutura é generalizada. Participação da UNESP Infelizmente a nossa participação no evento ficou restrita a um ônibus. No entanto, posso dizer que marcamos presença. Apresentamos quatro trabalhos acadêmicos, além de levarmos uma oficina do NECONST para o ENED. Mais do que tudo: recebemos de um carioca o título de “delegação mais animada” do ENED. Embora não estivéssemos em peso nas festas oficiais, todas as noites nos divertimos no Centro de Convivência da UCS, que teve apresentação de bandas locais além de muita cerveja e vinho. Enfim Um gaúcho sintetizou brilhantemente a verdadeira proposta do ENED: aprendizagem através da alteridade, em outras palavras, é através dos outros que conhecemos a nós mesmos. Valeu a pena passar mais de 26 horas dentro de um ônibus. O clima ajudou, e a recepção dos gaúchos não deixou a desejar. Agora é esperar pra ver como vai ser o ENED 2009, a ser sediado em Belém – PA.
Aí a delegação da UNESP - um doce pra quem me encontrar na foto
May 23 Em tempos de fúriaObrigado pelos comentários do último texto. Sinto-me cativado a escrever e publicar novamente. Desta vez arriscarei no verso, mudando um pouco o tom do blog.
"EM TEMPOS DE FÚRIA October 09 Conto: Um Francano EsquecidoUm francano esquecido
A Matriz da Franca sempre lhe foi um ponto de referência e inspiração. Não havia por certo nele um querer não-estar lá. Estava todo dia sentado no banco de concreto, certamente divagando devagar, de um jeito que só quem não tem nada pra se preocupar consegue. Zico, como os taxistas lhe chamavam, antes trocava olhares e tentava conversar com os transeuntes, porém, depois de tantas vezes sumariamente ignorado, deixou pra lá; apenas observava o movimento, dando atenção a quem lhe dava atenção. Foi tantas vezes tratado como um animal que até já se sentia como um: coberto de pulgas, rosto peludo e cheiro ruim já faziam parte dele. Fazia muito tempo que morava ali. Mas nem sempre foi todo sujo e estropiado, já havia sido ele diferente: quando era pequeno logo foi separado da família, quis o destino que fosse criado por uma senhora que morava num sítio afastado. Um dia, sem mais nem menos, a velha morreu. O coitado, que já estava mais crescido, virou-se como pode, mas um tempo depois acabou vindo morar na rua. Evitava pensar no passado, preferia perder o tempo com o que se passava na praça. Tinha uma relação única com aquele local arborizado e repleto de pessoas. Seu território compreendia da porta da igreja até o relógio de sol. Já Branco, um mendigo que morava do lado de lá da praça era dono desde o relógio até a loja de departamentos, lá na outra ponta. O coitado de quem eu falo nunca trocou muita conversa com Branco. Nas poucas vezes que conversaram acontecia uma briga entre os dois. Não que o cara seja um mau caráter, ele realmente tinha razão em reclamar quando Zico mijava do lado do banco em que dormia. As árvores amenizavam um pouco as o calor das tardes infernais. No inverso, invariavelmente invernava à noite, quando o vento seco cortava-lhe as faces e doíam-lhos ossos. O movimento acabava, excetuando alguns bêbados ocasionais que às vezes o perturbava, e Zico podia ficar sozinho com o tapete brilhante do céu. Ah, como adorava as estrelas, mais até do que a lua. Passava horas, dias, anos, contando-as, sentindo-as com os olhos. Mesmo depois que a vista foi piorando, o coitado apertava as pálpebras para não perder o infinito celeste. Algumas vezes ele tinha tanta sorte que as luzes da praça eram cortadas e podia-se afinal ver o firmamento em seu esplendor. Franca é uma cidade situada sobre colinas, mais alta que as outras da região, e, portanto, mais perto das estrelas. Havia momentos bons durante o dia também. Demorou um pouco, mas Zico ficou amigo dos taxistas da praça. Sempre que podiam traziam comida, conversavam com ele. Um dos motoristas em especial, Seu Carlos, era uma ótima pessoa. Tratava o morador de rua como seu filho. Várias vezes, quando a tarde estava fraca de corridas, levava Zico para conhecer os cantos de Franca. Coitado do Seu Carlos, sempre querendo ajudar. Um dia foi levar dois rapazes no meio da noite pra um bairro afastado. Era na verdade um assalto, ele só percebeu mais tarde, quando era tarde demais. Queriam levar seu carro, mas o taxista tentou reagir. Não deu outra: mataram ele com dois tiros nas costas. No dia seguinte os outros taxistas vieram avisar o amigo. Ele não se conformou, chorou e ficou triste por muito tempo. O velho Carlos era o único companheiro que ele teve em sua triste vida. Tentaram consolar, manter as conversas das tardes fracas, mas o morador da praça não queria substitutos. Com o tempo Zico foi se isolando mais e mais. Há um tempo atrás ele adoeceu. Pegou uma doença qualquer, doença de velho, sabe. Minto. É doença de quem vive largado por aí, comendo e dormindo mal sempre, de quem é ignorado pelas pessoas que passam na rua, é o indivíduo travestido de lixo. Zico pegou um tipo de gripe-esclerose-depressiva. Começou a esquecer de comer, de dormir agasalhado, de olhar para o céu. Foi padecendo aos poucos, lentamente como um salgueiro centenário. Há uns dias atrás ele morreu. Poucas pessoas perceberam sua ausência. Zico já estava mais pra lá do que pra cá quando um dos taxistas o levou para o veterinário. O doutor foi incisivo no diagnóstico: “esse cachorro vira-latas morreu de tristeza”. |
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